Um grito e um tiro. Meus ouvidos vão explodir, meus olhos fecham instintivamente. O som da madeira perfurando ossos e músculos, acertei, bem no alvo.
- Ah, detetive Wright, o senhor acabou de cavar um buraco imundo para se enterrar. – É Victorio, sua voz soa ao mesmo tempo irritada e entretida. Abro os olhos, acertei, mas não exatamente, o homem de cabelos grandes e cavanhaque ensangüentado se moveu a tempo de defender seu patrão. Seus olhos miúdos e sem expressão agora lembravam os olhos de um tubarão, revelando o predador por trás da casca humana. Mas ele estava paralisado, a madeira bastante sólida perfurou exatamente seu coração, o sangue começa a escorrer e molhar minhas mãos. Posso sentir que ele está tentando lutar, mas não consegue se mover, do mesmo jeito que Leon não conseguiu.
- Eu pretendia apenas causar ao seu irmão a mesma dor que ele causou à Família. Mas agora acho que minha vingança recairá sobre o senhor também, detetive. Seu irmão vem comigo.
Leon cai de joelhos no chão, como uma marionete com as cordas cortadas. Não leva muito tempo para ele notar a arma fumegando em sua mão e o cadáver recém abatido de sua querida namorada.
- NÃO!MALDITO!POR QUÊ FEZ ISSO COM ELA?POR FAVOR, NÃO! – Seus gritos iam ficando cada vez mais histéricos e menos coerentes, transformando-se num lamento desesperado. Ele estava destruído por dentro.
- Eu não fiz nada, jovem Wright. Sua arma, suas digitais, sua mulher. É isso que os métodos investigativos dos peritos vão levantar sobre o caso, seu irmão conhece bem os procedimentos.
Leon empunha novamente a 44, acho que vai se matar. Não, ele aponta pro canalha do Santieri. Um tiro certeiro, bem no meio do peitoral. O vampiro ri.
- Vincenzo, cuide do senhor detetive, por favor, – Outro tiro, dessa vez no ombro de Victorio, sua fala continua, como se nada estivesse acontecendo – enquanto eu dou um jeito neste vermezinho insolente.
O estranho homem pálido – Vincenzo – não parou de sorrir desde que chegou. Saco as duas Taurus e disparo. Um, dois tiros. Ele já está me agarrando pelo pescoço, eu não vi nenhum sangue nele, mas até Victorio estava com seu terno machado depois que as balas da Magnum o atingiram. Não consigo respirar. Disparo de novo: um, dois em cheio no peito, um terceiro na garganta. O desgraçado está sorrindo, mostrando os dentes. Sua cara é pálida como cera e seus olhos parecem vidro embaçado.
Ar.Preciso de ar.
Victorio se move, parece um borrão escuro, não consigo vê-lo. Leon está atirando, mas não sabe se acertou. Preciso respirar. Chutá-lo não está adiantando nada. Victorio já agarrou meu irmão pelos ombros, veio por trás, de algum modo. Posso ouvir as omoplatas dele se quebrando.
Preciso de ar.
Finalmente, ele afrouxou os dedos em volta do meu pescoço. Sua outra mão agarra meu braço direito. Dói, dói DEMAIS. Com um único movimento quebrou meu braço em dois lugares. Pelo menos posso respirar agora. E o filho da puta ainda está me mostrando esses dentes que parecem pequenas tabuletas de marfim. Ele agarrou o outro braço, sem quebrar, mas com muita força. Ele inclina a cabeça o suficiente para eu poder ver o que Victorio está fazendo com meu irmão.
Achei que Leon fosse gritar, mas quando Victorio o mordeu, ele perdeu totalmente a reação. Pude ver de relance suas presas afiadas afundando no pescoço do meu irmão.
-Pare! Seu maldito, pare! – Um joelho atinge minhas costelas em cheio, droga, esse cara é forte demais, ele está apertando meu braço quebrado, triturando os ossos. Não consigo conter um grito de dor.
Victorio está se deliciando com o sangue, Leon parece que está morrendo aos poucos. Ele desmaia em segundos. O maldito vampiro o carrega com um braço só, apoiando-o no ombro que não foi baleado.
- Agora, detetive, vou levar seu irmão, o último membro vivo da sua família.
Não consigo fazer nada, a dor é forte demais, ele está me segurando contra a parede e quebrando meu outro braço bem devagar.
- Não fique tão preocupado, não vai viver para ver o que eu vou fazer com ele. Faça o que tem de fazer, Vincenzo, depois desça e traga o corpo da mulher. E tire a maldita estaca do peito do Franco, por favor. Ainda temos trabalho a fazer. – Ele deixa o quarto, levando Leon embora. Deixei a última pessoa com quem eu me importava cair nas mãos de um sádico bebedor de sangue. Não posso morrer agora e deixar que os Santieri levem a melhor.
Vincenzo parou de apertar, a dor diminui rapidamente graças à adrenalina e ao ódio correndo em minhas veias.
- Você está achando tudo muito engraçado não é? Sua sanguessuga fodida de merda!
Ele se inclina em minha direção. Há algo errado com o rosto dele. Projeto minha cabeça para frente com toda força, quero quebrar o nariz do desgraçado. Ele nem balança, apenas sorri. Há algo realmente errado em seu rosto. Parece muito... Artificial.
Ele fica por alguns minutos apenas me imobilizando, se divertindo com minhas tentativas frustradas de sobrepujá-lo. O mesmo maldito sorriso, os mesmos olhos sem vida, olhando para algum lugar, algum lugar ao longe.
Aí a pele dele. Não, algo sob ela, começa a se mexer. Devo estar ficando maluco, parece que suas rugas e linhas de expressão estão mudando de lugar, como serpentes numa dança macabra.Os olhos dele estão rolando nas órbitas, ele me segura com mais força. Dor.
Os olhos dele caem. Duas bolas de vidro indo ao chão. Agora estou olhando para duas órbitas negras e vazias.
A pele de seu rosto começa a se contorcer. Parece se dobrar em certos pontos, como se estivesse ficando flácida. Mas o sorriso é o mesmo. Não consigo acreditar, a pele dele está caindo, junto com o chapéu e o escalpo.
Essa... Essa... Coisa não é desse mundo.
A pele se dobra e se desprende, como o couro mole e doentio de algum animal moribundo. O Sorriso desaparece. Ele não possui um rosto.
São tentáculos.
Acho que estou gritando. Acho que comecei a gritar quando os olhos dele caíram.
A coisa que está me agarrando tem uma massa de tentáculos negros e oleosos no lugar da cabeça. Suas mãos ainda são bastante humanas, mas posso ver tentáculos se insinuando por debaixo de suas roupas. Se projetando para me agarrar, como cobras constritoras. Deuses, alguém, alguém ajude... Por favor. Ele vai me matar e me quebrar e triturar e devorar minha alma. Por favor... não!
Primeiro são os braços, depois as pernas, sendo puxadas, deslocadas, quebradas, trituradas. Dor, essa dor iria me deixar louco, se o que isso que vejo diante de meus olhos não já tivesse arrancado minha sanidade. Agora são as costelas, ele está me destruindo aos poucos, essa coisa com tentáculos no lugar da cabeça usando um sobretudo preto e um terno italiano.
Alguém, alguém me acorde.
Qualquer um, por favor, interceda.
NÃO ME DEIXEM MORRER AQUI!
A janela passou sobre mim agora. Ou eu passei por ela? Vento nas minhas costas, estou caindo, foi arremessado como um brinquedo quebrado. Quebrados estão os meus ossos, acho que todos eles já eram. Ouço o som de carne batendo em ferro. Meu estômago, meu estômago foi trespassado por alguma coisa.Sinto o gosto do sangue em minha boca. Que sensação estranha está quente está frio está brilhando está escuro está tudo incoerente. Ah, é isso, são as lancetas da parte de cima do portão da mansão. A grade de aço perfurou meu abdome, O sangue está brotando como uma fonte da minha barriga, tem sangue entupindo minha garganta e acho que meus pulmões também. Acho que vou morrer, pelo menos não será nas mãos daquela coisa. Posso ver a mansão daqui, há fogo do lado de dentro, vão queimá-la por inteiro.
Mas tem algo de estranho aqui. Uma escuridão, uma sombra se fechando sobre mim.
Não estou sozinho.
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Tem um vampiro ahahahahauhihsaiahsi
ResponderExcluirUHAUHAUHAUH! BRAVO! sua cara mesmo!! \o
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