quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Three Prayers

I'm thankful to Odin;
For teaching me about sacrifice;
And what it means to be truly powerful.

I'm thankful to Thor;
For teaching me about choice;
And protecting what matters the most.

I'm thankful to Loki;
For covering my tracks;
And providing the tools of my trade.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Quetzalcóatl (M. Neves, Salvador, 2012)

Inútil esforço prever o apocalipse:

O mundo acabou quando a espada de Cortez
Abriu o primeiro corte na carne da América;
Devorou nossas almas e cuspiu fora os corpos,
Sem vida, sem cor, sem esperança;
Foram-se as plumas, restou a serpente.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sangue e cinza - Parte 4

O guarda noturno se aproximava em passos rápidos, não se esquecendo de lembrar ao caçador que ficasse "bem quietinho aí" e que "estranhos não deviam perambular pela vizinhança a essa hora da noite".

O caçador tentava transparecer o máximo de calma possível, enquanto em seu interior crescia uma frustração devastadora que só um maníaco privado do objeto de sua obsessão pode conhecer. Por que justamente agora? Quando estava perto, oh, tão perto de encontrar um nó solto, um ponto fraco!

Agora tinha de se preocupar com o vigia, um homem de aparência cansada e nem um pouco ameaçadora. Exibia uma barriga volumosa se insinuando por debaixo do uniforme e parecia estar suando como um condenado mesmo com o a brisa refrescante que sussurrava em meio às ruas e becos naquela noite. Um homem comum, um maldito homem comum entrando no caminho de um matador, pior, ficando entre um matador e sua presa.

-
Boa noite, garotão! - Disse o guarda num tom jovial, tentando mascarar certo desconforto. O caçador era muito maior que ele e, mesmo com um sorriso estampado no rosto, deixava que algo em seus olhos denunciasse sua natureza. - O que um cara como você está fazendo por aquo a essa hora? Não veio procurar encrenca, não no meu turno, não é?

-Cadê o seu parceiro? Pensei que andavam em duplas
... - Uma lanterna, uma Glock travada, ainda no coldre, um rádio. Tinha de dar um jeito naquele cara e naquele maldito rádio.

-O Jeff precisou atender a um "chamado da natureza". Mas só eu faço as perguntas por aqui, grandão. - Um ar de confiança verdadeira ainda se prendia aquele homem aparentemente mole e decadente. - O carro é seu?


Os documentos do cadilac estavam todos em ordem, sua carteira, também, manufaturados pelo melhor falsificador da cidade. O problema era que os papéis estavam dentro do carro, junto com todo um arsenal digno de um grupo guerrilheiro paramilitar, esse sim, sem qualquer registro ou documento que atestasse sua legalidade. Se fosse revistado, seria pego com três armas de fogo não registradas e algumas gramas de mescalina. Como se livrar daquela situação? Matar aquele homem, um trabalhador que provavelmente tinha esposa, filhos e um aluguel atrasado ou dois para se preocupar, o tornaria tão horrível quanto os bastardos que estava caçando. Deixá-lo viver poderia significar perder o rastro da presa ou ser descoberto pelas autoridades.

- Sabe, oficial... eu não sou um marginal qualquer andando por aí no meio da noite. - "Vamos, compre minha história" - Mas eu não devia estar aqui. Certas pessoas não podem saber o que eu fiz hoje.

- E o que andou fazendo, senhor...

- John Smith, mas pode me chamar de Jon. - "Pode me chamar de Cinderela, só preste atenção e acredite nessa mentira" - Bem, o senhor sabe, oficial, às vezes um homem tem certas necessidades e às vezes a esposa desse homem está cansada demais ou histérica demais para compreender e satisfazer essas necessidades...

-Não vejo aliança no seu dedo, "Johnny".

"Ah, bem observado, imbecil, agora engula o resto da história."

-Eu não ousaria fazer o que fiz sem tirá-la, senhor, não senhor. Eu respeito a minha mulher. Sou um homem de princípios.

O homem de uniforme sorriu, um sorriso malicioso, de quem compreende e compartilha desse tipo de "necessidade".

-Preciso chegar em casa o mais rápido possível, entrar sem fazer barulho, ela e as crianças têm o sono leve, sabe? Se o senhor me liberar, terá minha eterna gratidão.

- Gratidão, Johnny?

- Gratidão. Do tipo que é verde e compra algumas cervejas pra você e seu parceiro no fim do expediente.

- Ora, meu amigo. Pois eu compreendo muito bem as necessidades de um homem, como eu compreendo! Eu estaria sendo muito insensível se não me solidarizasse com sua situação.

O oficial da lei estendeu a mão amigavelmente em direção a "John Smith", como quem espera um aperto de mão fraterno e um muito bem-vindo suborno. O caçador procurou nos bolsos do casaco sem muita pressa, até finalmente encontrar o que procurava. Murmurou baixinho:

- Sabe, a gente sempre pode contar com a corrupção do próximo...

-O que disse?

A pergunta do guarda foi calada pela pesada coronha de um revólver modificado, que se chocou contra seu crânio com a força de uma bala de canhão. O homem que não tinha o direito de usar o uniforme que vestia nem o distintivo que carregava caiu no chão como um saco de adubo, desacordado.Havia um pouco de sangue brotando do lugar onde fora atingido, não o suficiente para indicar uma ferida letal.

O caçador abriu displicentemente a mala do cadilac, abarrotada de artefatos potencialmente letais, úteis ou simplesmente estranhos, pegou o galão de gasolina, alguns metros de corda e um rolo de fita adesiva tipo "silvertape". Demorou mais alguns minutos para amarrar o policial, se preocupando em deixar cada nó o mais resistente possível. Não que houvesse chance do homem acordar na próxima hora, mas queria que as cordas o apertassem de maneira a deixar marcas profundas e doloridas. Não bastasse ter sido interrompido em sua caçada, tinha especial desprezo por agentes da lei corruptos.

Trancou o infeliz no porta-malas, amarrado, amordaçado e vendado, destruiu seu rádio e tirou-lhe a glock. Voltou calmamente ao terreno baldio com a gasolina em mãos, pronto para incendiar aquele porão, para deixá-lo tão quente quanto o inferno ao qual servia. O sangue corria rápido pelo seu corpo e seus músculos estavam rígidos de antecipação, como molas num gatilho. A verdadeira caçada estava por começar.

Podia sentir a coisa obscura em sua alma se insinuar em sua mente. Parecia entretida pela sua atuação com o guarda noturno, não a via, mas sabia que estava ,de algum modo, sorrindo.

"Mesmo afastando-se quase totalmente do contato humano, parece ter mantido sua capacidade de persuasão, Caçador."

- Foi só o que me sobrou de humanidade: algumas palavras duras e muitas mentiras.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Sangue e cinza - Parte 3

As palavras saíram truncadas e deturpadas, à beira do entendimento. Pareciam se desprender da boca do morto só depois de uma luta ferrenha para permanecer encerradas em sua garganta, escapavam arranhando e gorgolejando. O cadáver parecia enrijecido numa expressão pétrea de agonia, como se tivesse sido morto durante uma longa sessão de tortura, e não simplesmente atravessado por um projétil de grosso calibre.

Os versos torpes e truncados, entalhados há muito tempo naquela velha pedra retangular num dialeto obscuro de uma língua antiga dada como morta, foram traduzidos com propriedade pelo cadáver, cada qual com sua entonação específica, embora todas as palavras ainda soassem como lamentos desesperados de alguém que estivesse lutando com todas as suas forças para mover os músculos necessários para falar.

“Shabaoth...” O caçador buscava em sua mente por alguma informação relacionada àquele nome, qual seria a porta que se abriria com aquela nova chave? A coisa se recolhia novamente para dentro de seu hospedeiro, levando a energia necrótica que animara o cadáver consigo.

O crânio do cultista morto atingiu o altar com um som desagradável de ossos rachando, seu cadáver novamente inerte. O som despertou o caçador de seus pensamentos. Não sabia muito sobre o ser ao qual aquele altar havia sido consagrado, mas sabia que era poderoso e ocupava uma posição bastante elevada nas chamadas “Cortes Profundas”.

“É um Lucifrano. Daemon da Corte da Soberba.” Ecoou o ser sombrio em sua mente, era terrível sua maneira de se comunicar. A coisa não tinha voz, a coisa pensava dentro de sua cabeça. Um pensamento indistinto aos seus, um pensamento particularmente denso e profundo que se formava em sua mente como outro qualquer, mas eclipsava todas as outras idéias, reduzindo-as a tênues fios de consciência.

- Os livros o mencionam como membro da Corte da Fúria. Estamos falando do mesmo demônio? – Preferia se comunicar com a coisa-chacal falando em voz alta. Ajudava a esconder a horrível sensação de ter estar dividindo a sua mente com alguém, de pensar os pensamentos de outra pessoa (pessoa? Seria muito mais fácil aguentar, se aquilo fosse apenas uma pessoa).

“Shabaoth despertou à existência no submundo como um Fúrio, mas traiu seu clã e acabou ascendendo entre as Castas Infernais, por isso se aliou a mais poderosa das Cortes Profundas.”

- Então estamos nos metendo com um cara de respeito, se o infeliz conseguiu passar a perna na própria família e ainda se dar bem com isso. Que tipo de coisa ele poderia ter enviado para esse bando de satanistas-de-fim-de-semana?

“Talvez a resposta a essa pergunta revele as intenções do nosso alvo.”

A coisa estava certa. Sempre estava. Não podia mais contar quantas vezes os conhecimentos e habilidades daquele críptico ser escondido em algum lugar de sua mente haviam lhe sido úteis. Na verdade, aquela coisa hedionda aferrada ao seu espírito salvar sua vida inúmeras vezes. Colocou o revólver no coldre sob o casaco e subiu as escadas, não sem antes acertar um belo chute no homem morto de manto vermelho-escuro. Odiava aquele tipo de gente quase tanto quanto odiava seus patronos.

Iria ao carro buscar gasolina, mas já se deliciava com a oportunidade de poder pegar a pump-action calibre 12 na mala do cadillac. Não havia nehuma mágica nela, mas fazia um estrago que aprendera a respeitar, muito antes se enredar nos planos de coisas ocultas e malignas, quando sua vida ainda guardava um semblante de normalidade e as únicas coisas que tinha de matar eram pessoas comuns.

Sorveu o ar noturno com avidez ao abandonar a atmosfera rançosa e estranhamente densa daquele cômodo subterrâneo. Os subúrbios eram sujos, sim, mas seu ar tinha menos veneno do que as cidades.

Veneno.

Soltou o ar não com um suspiro aliviado, mas com uma tosse nervosa e repentina. Estava estranhamente consciente agora de que havia uma toxina se espalhando em suas veias. A lâmina que o feriu devia ter sido tratada com algum veneno especial, era a única explicação. Voltou sua atenção ao ferimento mais uma vez, o corte era bem feio, mas havia algo impedindo o sangue de jorrar para fora, algo impedindo que a dor se alastrasse por seu corpo. Aquele maldito ser preso à sua alma tinha interesse em mantê-lo inteiro, em condições de lutar. Podia impedir a hemorragia e retardar o avanço da toxina, mas o caçador ainda precisaria de algum tratamento externo. Talvez ainda tivesse duas horas antes que até mesmo os prodígios daquela criatura de sombra e fumaça falhassem contra as imperfeições da carne.

Não havia tempo para descanso, não havia tempo para desviar sua atenção.

“A caçada deve continuar.” “A caçada deve continuar.”

O carro não estava muito longe, o havia estacionado numa rua próxima. Não era uma boa época para deixar um cadilac, modelo DeVille de 1995, reformado com perfeição, encostado numa viela qualquer de um bairro pobre. Mas o caçador tinha muitas outras coisas com as quais se preocupar do que com gangues de rua e ladrõezinhos de automóveis. Caminhou o mais rápido que podia sem chamar a atenção, era uma noite muito quieta numa vizinhança normalmente barulhenta, sinal de que o menor distúrbio deflagraria o caos generalizado. Quando finalmente estava perto o suficiente do veículo para estender as mãos abrir seu porta-malas robusto e antiquado, aconteceu o imprevisto mais desagradável possível.

Um guarda noturno dobrou a esquina, rodopiando despreocupadamente um cassetete. Parou à visão do caçador – o estereótipo do homem suspeito numa viela abandonada – e gritou, numa tentativa pobre de voz de comando:

- Ei!Você aí! Pare onde está!

“Ah, merda.” Praguejou, afastando as mãos no cadilac e levantando-as devagar.

domingo, 8 de agosto de 2010

Sangue e cinza - parte 2

O homem (haveria ainda meros homens e mulheres no mundo? Não no mundo do caçador.) que lhe dera a pluma metálica e ensinara a prece havia dito, com seu sorriso largo e amarelo, cheio de abismos entre os dentes:

“Num vai sarvá os vivo; mai vai butá us morto nus seus lugar de direito. Manda as Almas deles direto pru discanso eterno, pra labutá só na hora certa.”

O homem negro e maltrapilho que o presenteara com ambos o objeto de poder e o ensinamento, era bom, uma das últimas pessoas realmente boas naquela cidade. Mas o caçador não fizera aquilo como um ato de bondade, nem como um ato de dever. Era puro pragmatismo, ele dizia a si mesmo, limpar a contaminação demoníaca era necessário para evitar futuros problemas. Ainda restavam outras coisas para queimar.

Abriu despreocupadamente o tambor do revolver, o tiro que disparara contra o acólito havia desfalcado a sua meticulosa combinação de projéteis. Buscou num dos seus inúmeros bolsos e cartuchos pela bala certa: Taranis, o relâmpago. Colocou a bala, que carregava o símbolo de uma roda dentro de outra roda menor, ligada por seis raios. O símbolo celta do deus do trovão. Rodou o tambor para ajustá-la na posição certa, Taranis devia ser o primeiro a atacar.

Com a arma pronta, levou a mão à região entre o ombro e o pescoço, no local da punhalada. Não sentia qualquer dor, mas sabia que inevitavelmente teria de lidar com uma possível infecção, e a dor chegaria mais tarde – ela sempre chegava – quando se deitasse para repor as energias. Deu um passo em direção à escada que levava para fora daquele lugar, iria buscar o galão de gasolina que guardava na traseira do cadillac e reduzir todo aquele porão a cinzas.

A coisa dentro do caçador se revirou e se manifestou em seus pensamentos.

“Não está se esquecendo de nada? Acha que sabe de tudo o que precisa? Olhe de novo.”

“Olhe com MEUS olhos.”

A coisa escura dentro do caçador era de natureza ambígua. Percebê-la era como olhar através de um caleidoscópio, cada ângulo revelava uma nova realidade, cada olhada denunciaria uma natureza diferente, e de todos os modos não era possível distinguir realmente o que estava diante dos olhos.

Era uma coisa esquálida e faminta. Uma coisa esguia e traiçoeira que se esgueirava pelas pilastras escuras nos salões dos mortos. Uma coisa raivosa e faminta. Mas também era uma coisa nobre. Uma coisa antiga e poderosa. Uma coisa sombria sábia como as areias do tempo. Esgueirava-se nas sombras da cidade dos mortos e ao mesmo tempo se sentava no trono ósseo do regente.

Fosse vista como necrófago ou como sábio ancião, era uma fera astuta. Seus olhos eram faíscas vermelhas que denunciavam sua sagacidade, mas todo o resto era feito de algo entre a sombra e a fumaça, escuro como o vácuo entre as estrelas. Nem mesmo o caçador saberia precisar se aquele ser enterrado em sua mente e conectado ao seu espírito caminhava como homem ou como besta, mas ele via seu rosto.Era um chacal.

- Tenho tudo sob controle. O que temos de fazer agora é queimar isso tudo antes que alguma outra cria infernal se aproveite deste lugar.

“O altar, leia o que está escrito no altar.”

O caçador não gostava de ser corrigido em seus planos, mas sabia que devia ouvir os conselhos de alguém/algo tão mais sábio e experiente que ele. Mesmo que esse algo/alguém regozijasse na poeira e nos ossos e desejasse a carne morta das criptas. Deu meia-volta para o altar, agora livre do corpo da jovem. Não conseguia reconhecer a escrita. Aquela pedra rústica devia ter sido talhada no amanhecer do tempo – ou no crepúsculo das eras antigas, quando os deuses deixaram o mundo.

“O sacerdote sabe.”

Chamar aquele homem frágil e de aparência tão jovem, que agora jazia morto com um buraco fumegante no lugar do coração, de “sacerdote” era realmente um grande elogio. “No máximo, um cultista novato e descartável.” Pensou o caçador, e a coisa soube de seu pensamento. Mas não houve discussão sobre o assunto. Pegou o cadáver pelos cabelos, colocou os olhos na direção das escrituras na pedra antiga.

- Faça-o ver. Faça-o falar.

A coisa obscura e incorpórea, a coisa com a face de um chacal e olhos de estrelas semimortas, se insinuou para fora do caçador. Tomou forma como uma sombra pairando sobre ele, superposta a ele. Os olhos da coisa eram os olhos do caçador, as mãos do caçador eram as mãos da coisa.

A mandíbula do cadáver deixou-se abrir, sua língua amoleceu e ficou pendurada por um momento, então os olhos se reviraram, as íris azuis desapareceram e deram lugar a um tom esbranquiçado. A língua se contorceu como um verme revolvendo a sujeira e o maxilar se contraiu e relaxou, produzindo um movimento tortuoso que era um arremedo cruel de fala humana. O som era em partes iguais respiração ofegante e guincho agudo.

-Leia./Leia. – disseram em uníssono o caçador e a coisa-chacal e o cadáver os obedeceu.

Desbravador incansável; caçador implacável

Sultão das terras sombrias; sussurro das tumbas frias

O cavaleiro negro; em sua pálida montaria

Bael-Al-Shabbaoth”

terça-feira, 13 de julho de 2010

Sangue e cinza. ( parte1)

O ar tinha um cheiro forte de morte, fogo e enxofre, maximizado pela falta de espaço e isolamento daquele cômodo escuro. Um porão antigo esquecido nos subúrbios, sem nenhuma casa assombrada sobre si, apenas um terreno baldio que abrigava pouco mais que uma proliferação descontrolada de ervas daninhas, lixo urbano e talvez alguns roedores.

E, é claro, o tradicional culto demoníaco.

“Odeio clichês.” Resmungava o caçador enquanto checava instintivamente a munição do revólver, uma monstruosidade de ferro modificada a tal ponto que seria impossível identificar o modelo. Na verdade, era provável que fosse um amálgama de diversas peças diferentes. A disposição das balas no tambor era muito específica; o fundo cada projétil era marcado com um tipo diferente de símbolo ou runa, e só a combinação correta serviria para abater a presa daquela noite.

Correu os olhos novamente pelo aposento, todos os elementos básicos estavam ali: um altar de pedra com o símbolo da deidade a ser evocada, completo com uma virgem nua e recém sacrificada. Talvez não fosse uma virgem, mas as condições apontavam para tal. Tudo mais era como num blockbuster de horror para jovens alienados. Havia sal grosso, velas de todos os tamanhos apoiadas em crânios limpos e sorridentes, musgo e terra de cemitério, pelo menos meia dúzia de insetos peçonhentos diferentes devidamente tratados, pó-de-chifre, um jarro de vidro cheio até a borda com sangue e o mais importante de tudo: o punho decepado e semidecomposto de um cadáver, eternamente cerrado graças ao rigor mortis, a Mão-da-Glória.

Todos os clichês metodicamente reunidos, feito uma peça de teatro dirigida por algum maníaco compulsivo. Até o bom e velho cultista vestido com um manto vermelho-escuro, portando uma adaga de lâmina tão retorcida quanto afiada, só o que quebrava a harmonia macabra da cena era o buraco fumegante aberto bem no meio de seu tórax. O tiro do caçador havia ecoado como um trovão e atravessado o peito do infeliz adorador das Forças Ocultas como um relâmpago, chamuscando-lhe o manto escuro nos pontos em que havia entrado e saído. O caçador teria poupado sua vida, se ele não tivesse cometido o erro de cravar o punhal em seu ombro direito.
A maioria das pessoas acha que uma incisão profunda tão perto do pescoço causaria sérios problemas a um homem comum, e isso é bem verdade. Mas o caçador não era exatamente comum, talvez nem fosse completamente humano.

Estava tentando deduzir que tipo de manifestação havia sido evocada. A Mão-da-Glória com certeza indicava uma coisa poderosa e irremediavelmente má. Não tinha como saber se os chifres triturados para fazer o pó que estava despejado sobre o altar eram de bode ou boi, talvez nenhum dos dois, talvez ambos. Aproximou-se do corpo da mulher sacrificada, uma bela jovem morena, não devia ter mais que dezessete anos, notou as tatuagens ritualísticas desenhadas em seu corpo, sugeriam que havia sido preparada para como receptáculo para possessão. A julgar pelo estado do ventre da moça – completamente dilacerado, de dentro para fora, com coágulos escuros como piche ao invés de rios de sangue – a coisa que se apoderou dela deveria ter adquirido forma corpórea e abandonado a “casca”.

“Pra onde quer que tenha ido, deve estar crescendo bem rápido agora.” O caçador fazia anotações mentais sobre a possível natureza da coisa que viria a enfrentar sem demonstrar qualquer preocupação. Tirou de um dos bolsos do casaco um colar de contas, assemelhava-se a um terço, mas cada conta era de um tamanho, cor e material diferentes – osso amarelado, madeira vermelha, âmbar, plástico preto – e na ponta, ao invés de uma cruz, havia algo parecido com uma pluma, porém era rígida, lisa e afiada como aço e reluzia como prata pura.

Com o estranho colar de oração enrolado em uma das mãos e o revólver na outra, o caçador murmurou uma prece curta, palavras decoradas em uma língua desconhecida até mesmo para ele. Encostou a pluma de prata na cabeça da jovem morta.

- Sol e água, um pouco de paz em tua alma. Fogo e cinza, descanso para teu corpo.

No mesmo instante, o cadáver da jovem pareceu estar limpo, sem quaisquer desenhos ou glifos em seu corpo. Lentamente, as extremidades do corpo começaram a desprender uma fumaça esbranquiçada, queimando lentamente sem exalar qualquer odor. No fim, restaram apenas as cinzas, que foram gentilmente carregadas pelo vento, mesmo no ar rançoso e imóvel daquele cômodo escuro.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Party Crashers - Parte 4 (Final?)

Um grito e um tiro. Meus ouvidos vão explodir, meus olhos fecham instintivamente. O som da madeira perfurando ossos e músculos, acertei, bem no alvo.

- Ah, detetive Wright, o senhor acabou de cavar um buraco imundo para se enterrar. – É Victorio, sua voz soa ao mesmo tempo irritada e entretida. Abro os olhos, acertei, mas não exatamente, o homem de cabelos grandes e cavanhaque ensangüentado se moveu a tempo de defender seu patrão. Seus olhos miúdos e sem expressão agora lembravam os olhos de um tubarão, revelando o predador por trás da casca humana. Mas ele estava paralisado, a madeira bastante sólida perfurou exatamente seu coração, o sangue começa a escorrer e molhar minhas mãos. Posso sentir que ele está tentando lutar, mas não consegue se mover, do mesmo jeito que Leon não conseguiu.

- Eu pretendia apenas causar ao seu irmão a mesma dor que ele causou à Família. Mas agora acho que minha vingança recairá sobre o senhor também, detetive. Seu irmão vem comigo.

Leon cai de joelhos no chão, como uma marionete com as cordas cortadas. Não leva muito tempo para ele notar a arma fumegando em sua mão e o cadáver recém abatido de sua querida namorada.

- NÃO!MALDITO!POR QUÊ FEZ ISSO COM ELA?POR FAVOR, NÃO! – Seus gritos iam ficando cada vez mais histéricos e menos coerentes, transformando-se num lamento desesperado. Ele estava destruído por dentro.

- Eu não fiz nada, jovem Wright. Sua arma, suas digitais, sua mulher. É isso que os métodos investigativos dos peritos vão levantar sobre o caso, seu irmão conhece bem os procedimentos.

Leon empunha novamente a 44, acho que vai se matar. Não, ele aponta pro canalha do Santieri. Um tiro certeiro, bem no meio do peitoral. O vampiro ri.

- Vincenzo, cuide do senhor detetive, por favor, – Outro tiro, dessa vez no ombro de Victorio, sua fala continua, como se nada estivesse acontecendo – enquanto eu dou um jeito neste vermezinho insolente.

O estranho homem pálido – Vincenzo – não parou de sorrir desde que chegou. Saco as duas Taurus e disparo. Um, dois tiros. Ele já está me agarrando pelo pescoço, eu não vi nenhum sangue nele, mas até Victorio estava com seu terno machado depois que as balas da Magnum o atingiram. Não consigo respirar. Disparo de novo: um, dois em cheio no peito, um terceiro na garganta. O desgraçado está sorrindo, mostrando os dentes. Sua cara é pálida como cera e seus olhos parecem vidro embaçado.

Ar.Preciso de ar.

Victorio se move, parece um borrão escuro, não consigo vê-lo. Leon está atirando, mas não sabe se acertou. Preciso respirar. Chutá-lo não está adiantando nada. Victorio já agarrou meu irmão pelos ombros, veio por trás, de algum modo. Posso ouvir as omoplatas dele se quebrando.

Preciso de ar.

Finalmente, ele afrouxou os dedos em volta do meu pescoço. Sua outra mão agarra meu braço direito. Dói, dói DEMAIS. Com um único movimento quebrou meu braço em dois lugares. Pelo menos posso respirar agora. E o filho da puta ainda está me mostrando esses dentes que parecem pequenas tabuletas de marfim. Ele agarrou o outro braço, sem quebrar, mas com muita força. Ele inclina a cabeça o suficiente para eu poder ver o que Victorio está fazendo com meu irmão.

Achei que Leon fosse gritar, mas quando Victorio o mordeu, ele perdeu totalmente a reação. Pude ver de relance suas presas afiadas afundando no pescoço do meu irmão.

-Pare! Seu maldito, pare! – Um joelho atinge minhas costelas em cheio, droga, esse cara é forte demais, ele está apertando meu braço quebrado, triturando os ossos. Não consigo conter um grito de dor.

Victorio está se deliciando com o sangue, Leon parece que está morrendo aos poucos. Ele desmaia em segundos. O maldito vampiro o carrega com um braço só, apoiando-o no ombro que não foi baleado.

- Agora, detetive, vou levar seu irmão, o último membro vivo da sua família.

Não consigo fazer nada, a dor é forte demais, ele está me segurando contra a parede e quebrando meu outro braço bem devagar.

- Não fique tão preocupado, não vai viver para ver o que eu vou fazer com ele. Faça o que tem de fazer, Vincenzo, depois desça e traga o corpo da mulher. E tire a maldita estaca do peito do Franco, por favor. Ainda temos trabalho a fazer. – Ele deixa o quarto, levando Leon embora. Deixei a última pessoa com quem eu me importava cair nas mãos de um sádico bebedor de sangue. Não posso morrer agora e deixar que os Santieri levem a melhor.

Vincenzo parou de apertar, a dor diminui rapidamente graças à adrenalina e ao ódio correndo em minhas veias.

- Você está achando tudo muito engraçado não é? Sua sanguessuga fodida de merda!

Ele se inclina em minha direção. Há algo errado com o rosto dele. Projeto minha cabeça para frente com toda força, quero quebrar o nariz do desgraçado. Ele nem balança, apenas sorri. Há algo realmente errado em seu rosto. Parece muito... Artificial.

Ele fica por alguns minutos apenas me imobilizando, se divertindo com minhas tentativas frustradas de sobrepujá-lo. O mesmo maldito sorriso, os mesmos olhos sem vida, olhando para algum lugar, algum lugar ao longe.

Aí a pele dele. Não, algo sob ela, começa a se mexer. Devo estar ficando maluco, parece que suas rugas e linhas de expressão estão mudando de lugar, como serpentes numa dança macabra.Os olhos dele estão rolando nas órbitas, ele me segura com mais força. Dor.

Os olhos dele caem. Duas bolas de vidro indo ao chão. Agora estou olhando para duas órbitas negras e vazias.

A pele de seu rosto começa a se contorcer. Parece se dobrar em certos pontos, como se estivesse ficando flácida. Mas o sorriso é o mesmo. Não consigo acreditar, a pele dele está caindo, junto com o chapéu e o escalpo.

Essa... Essa... Coisa não é desse mundo.

A pele se dobra e se desprende, como o couro mole e doentio de algum animal moribundo. O Sorriso desaparece. Ele não possui um rosto.

São tentáculos.

Acho que estou gritando. Acho que comecei a gritar quando os olhos dele caíram.

A coisa que está me agarrando tem uma massa de tentáculos negros e oleosos no lugar da cabeça. Suas mãos ainda são bastante humanas, mas posso ver tentáculos se insinuando por debaixo de suas roupas. Se projetando para me agarrar, como cobras constritoras. Deuses, alguém, alguém ajude... Por favor. Ele vai me matar e me quebrar e triturar e devorar minha alma. Por favor... não!

Primeiro são os braços, depois as pernas, sendo puxadas, deslocadas, quebradas, trituradas. Dor, essa dor iria me deixar louco, se o que isso que vejo diante de meus olhos não já tivesse arrancado minha sanidade. Agora são as costelas, ele está me destruindo aos poucos, essa coisa com tentáculos no lugar da cabeça usando um sobretudo preto e um terno italiano.

Alguém, alguém me acorde.

Qualquer um, por favor, interceda.

NÃO ME DEIXEM MORRER AQUI!

A janela passou sobre mim agora. Ou eu passei por ela? Vento nas minhas costas, estou caindo, foi arremessado como um brinquedo quebrado. Quebrados estão os meus ossos, acho que todos eles já eram. Ouço o som de carne batendo em ferro. Meu estômago, meu estômago foi trespassado por alguma coisa.Sinto o gosto do sangue em minha boca. Que sensação estranha está quente está frio está brilhando está escuro está tudo incoerente. Ah, é isso, são as lancetas da parte de cima do portão da mansão. A grade de aço perfurou meu abdome, O sangue está brotando como uma fonte da minha barriga, tem sangue entupindo minha garganta e acho que meus pulmões também. Acho que vou morrer, pelo menos não será nas mãos daquela coisa. Posso ver a mansão daqui, há fogo do lado de dentro, vão queimá-la por inteiro.

Mas tem algo de estranho aqui. Uma escuridão, uma sombra se fechando sobre mim.

Não estou sozinho.

domingo, 7 de março de 2010

Party Crashers - Parte 3

- Muito boa noite a todos. - A voz era límpida e perfeita, ecoava cristalina em meus ouvidos, embora o falante fosse apenas uma sombra ao longe - Meu nome é Victorio Santieri, estou aqui para concluir um negócio com o Sr. Wright, por favor, não interfiram. Meus companheiros estão aqui para assegurar que a transação ocorra sem maiores entraves. Se um de vocês pudesse abrir o portão e nos convidar para entrar, eu ficaria extremamente grato.

Tenho certeza de que todos ouviram Santieri falar, mesmo os que estão trancados num dos quartos da mansão, mesmo os que estão inconscientes, jogados em algum sofá, devem tê-lo escutado em sonho. A voz é amigável e segura, calma, mas infinitamente penetrante. Ainda há muitas pessoas do lado de fora, as primeiras a verem meu irmão voltar e subir para o escritório. Aparentemente não sabiam que Victorio estava em seu encalço e continuaram a se fartar da bebida e da comida. Pararam de rir e de beber para escutar. Outros chegam aos jardins do lado de fora, vindos de dentro do casarão, implorando por clemência. Ouço gritos e o pranto desesperado de alguns.

Um jovem alto e forte se dirige ao portão. Vai abrí-lo. Não será necessário.

Duas "sombras" saltam do meio da rua, alcançam uma altura surreal. Agora, posso ver seus rostos contra o luar. Saltando por sobre o muro e rindo alto. As feições distorcidas em sorrisos insanos, cheios de malícia e prazer sádico. Começam a disparar antes mesmo de pisarem no chão. O ronco das metralhadoras abafa os gritos, mas não o riso dos dois.

As balas descem numa tempestade de chumbo, varando a carne e os ossos dos pobres jovens no gramado, juntas estourando, crânios arrebentando. Sangue jorra, regando o jardim. Não consigo ouvir gritos, mas vejo o desespero em suas faces. O ronco ininterrupto das Thompsons é seco e artificial, um grito mecânico que não conhece a compaixão. Já vi muitos tiroteios. Participei deles. Mas isso é um massacre, e destes eu só conheço a sujeira que fica espalhada na cena do crime.

Eles avançam, pararam de atirar, mas ainda riem. Há duas garotas abraçadas, cobertas com o sangue de seus amigos, se arrastando juntas para longe dos atiradores. Um dos desgraçados largou a arma no chão e está correndo, correndo apoiado nas mãos e pés, correndo como um animal de quatro patas. Ele se lança sobre elas. Deuses, não posso gritar. Ele está mordendo e dilacerando. Não vou gritar, não vou. Elas choram e imploram e eles riem...

Não vamos conseguir, em segundos, Victorio vai estar aqui e vai vingar a morte do seu irmão. Estão batendo na porta do quarto gritando por socorro. Têm cadáveres ornamentando o gramado e pessoas correndo enquanto dois monstros sádicos avançam. Um deles com duas metralhadoras, o outro, com presas e garras. Sobreviventes correm em direção ao portão, outros, para dentro da casa.

Não é mais seguro olhar pela janela, abaixado, de costas para a parede, só posso esperar o momento certo.

Um estrondo metálico. Acho que derrubaram o portão.

- Marcus, faça alguma coisa, por favor.

- Quando entrarem, atire. Faça-os sangrar, Leon, talvez isso os canse um pouco e poderemos fugir.

Gritos de desespero - Isso não vai acabar nunca, cada segundo é uma eternidade. Ronco de metralhadora. Risos de um sádico. Rugido bestial. Posso sentir um cheiro misturado de pólvora e sangue se elevar no ambiente. As súplicas agonizantes por piedade são ignoradas, seguidas por gemidos de dor.

A voz imponente de Victorio ecoa do salão, parece se divertir:


- Esperem para beber depois, rapazes. Juntem os corpos nesta sala, vamos precisar deles. - Não quero nem imaginar que uso macabro (alimento, diz uma voz em minha cabeça) eles terão para os cadáveres. – Thorsen, vá ver se há mais alguém respirando nesse andar, volte quando não houver.

Silêncio.

Passos perto da porta. Meus dedos estão coçando, pedindo para disparar. Minha estaca improvisada tem que funcionar, talvez eles fiquem surpresos e baixem a guarda.

Um baque surdo, a porta é derrubada com um cadáver decapitado. Aple grita como uma alma condenada. Victorio está de pé do outro lado com dois dos seus homens.

- Olá, senhores. - O dono da bela voz operística tem uma aparência jovem. – Perdoem-me por interromper sua pequena “reunião de família”. - Está vestido impecavelmente, seu terno deve ter sido feito sob encomenda, é um tanto conservador, mas ainda assim imponente, uma cor forte que contrasta com o cinza pálido do sobretudo e do chapéu. – Infelizmente, me parece que nossas duas famílias acabaram se envolvendo em um nível muito... Pessoal. - Ele sorri como se tudo estivesse sob seu controle.

E está.

A expressão no seu rosto é quase amigável, quase sinto vontade de me levantar e retribuir a cordialidade. Mas tem algo que não está certo. Seus olhos o traem, mostram uma frieza que contradiz sua cordialidade, uma experiência que denuncia sua verdadeira idade, uma crueldade que não é de todo humana.É um vampiro, sem dúvida. Nunca pensei que veria um tão de perto, nunca quis isso, mas já me envolvi por vezes demais com seus servos e asseclas.

A esquerda de Victorio, um homem encorpado, não exatamente forte. Com cabelos longos puxados para trás numa pobre tentativa de parecer formal. Sua expressão é indiferente, quase bovina. Estar ali para ele deve ser como ir ao supermercado ou a um posto de gasolina. Porém, vejo sangue pingando do seu cavanhaque castanho. No flanco oposto, um homem mediano, pálido e estranho, mantém os olhos fixos no vazio e sorri, mostrando dentes brancos, perfeitos e um tanto quadrados. Ao contrário do seu colega, ele parece achar graça naquilo tudo. Pela sua expressão, deve ter achado graça do funeral da própria mãe, também.

Leon está correndo antes que eu possa dizer algo para impedi-lo, sua própria estaca nas mãos, como uma lança, mirando no coração do líder daquele bando profano de assassinos. Nenhum dos guarda-costas de Santieri move um músculo. Victorio apenas muda a sua postura: o sorriso amigável e calmante se transforma numa feição de preocupada desaprovação, como uma professora do jardim de infância olhando para um garotinho levado.

Leon pára. Aponta afiada da madeira a centímetros de distância do coração do maldito Santieri. Os olhos de meu irmão dançam das órbitas, buscando entender o que está acontecendo – eu não faço ideia. Ele parece lutar com todas as forças para atingir seu alvo, mas seu corpo está completamente imóvel, o peso apoiado sobre a perna direita, que se dobra para impeli-lo para frente.

- Garoto ingênuo – Diz Victorio, num tom professoral. – Acha mesmo que pode me fazer algum mal? Assim, correndo pra cima de mim como um bárbaro? Eu não sou igual ao bastardo que você matou mais cedo, criança. Ele tinha meu sangue, mas não era d’A Família, ainda. Estava próximo, muito mesmo. Ele era minha responsabilidade, meu “irmão”. – Leon parece assustado demais para responder, e acho que não conseguiria mexer os lábios mesmo se não estivesse.

- Se era sua função cuidar dele, por que o deixou sozinho por aí, traficando e estuprando? – Espero não ter deixado o medo transparecer na minha voz.Espero que ele não veja a estaca escondida em meu casaco.

- Ah, detetive, eis a questão.

- Sabe que eu não trabalho mais com isso.

- Sei sim, e sei que a lembrança disso o incomoda. Sabe, Hugo foi uma falha minha, do mesmo jeito que este garotinho insolente é falha sua. Vim aqui cobrar a dívida de sangue que ele fez ao estourar os miolos de um parente meu. É assim que nós...

- Me solte! Seu demônio filho da puta! Eu matei seu irmão e vou matar você! – Leon interrompeu. De algum modo, o controle de Victorio sobre ele havia diminuído. Talvez por que eu desviei sua atenção. O vampiro voltou seu foco imediatamente para meu irmão.

- Você já me causou problemas demais, está na hora de acertar nossas contas.

Os olhos de Leon se tornaram leitosos, como se uma catarata instantânea tivesse tomado conta de sua visão. Ele se moveu e soltou a estaca no chão. Ficou de pé, imóvel como um boneco.

Era a minha chance, Victorio estava concentrado demais em controlar os movimentos de Leon.

A marionete humana que é meu irmão busca a magnum em sua cintura. Saca devagar e descreve um arco para trás, na direção da mulher encolhida no canto do quarto.

Eu avanço, estaca em punho.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Party Crashers - Parte 2

Quando vim a essa festa não fazia ideia do que a noite me reservaria. Meu plano era entrar, encontrar Leon e a vadia dele e passar meu " velho sermão". Esperava ter que bater em um ou dois imbecis, talvez - seria até bom para "descarregar" a tensão, eu pensei. Podíamos ser donos dos nossos narizes e ter nossas próprias vidas agora, mas eu ainda era o mais velho, e isso implica certas responsabilidades.

Quando cheguei, a música estava no último volume. Haviam luzes coloridas iluminando a fachada do casarão e pessoas dançando, bebendo e destruindo a decoração alegremente no gramado. Entrar havia sido fácil, sendo irmão do organizador daquela orgia química disfarçada de aniversário. O grande portão de aço foi aberto pelos seguranças da mansão quando viram o sobrenome Wright em minha identidade. Os muros eram altos e cinzentos, sem quaisquer adornos, apenas concreto maciço.
O casarão, pelo contrário, era muito bonito, rodeado por jardins e provavelmente projetado por um arquiteto muito bem pago. Mesclava a sobriedade pragmática de um homem de negócios com a preocupação estética de um escultor, o que talvez revelasse algo sobre a personalidade do proprietário.

Embora fosse assim tão bela e bem cuidada, abrigava um bando bastante barulhendo de beberrões, fumantes e todo tipo de "degustador de psicotrópicos". A música era uma fachada, a decoração um disfarce, os garçons e cozinheiros de plantão, mero capricho. Estavam todos lá apenas pela droga gentilmente fornecida por Leon Wright, o mais novo "aviãozinho de luxo" da cidade.

É incrível como a gente conhece uma pessoa durante toda a vida, passa a gostar dela, amá-la, para só depois sofrer uma decepção fria e cruel como uma faca pelas costas. Tudo bem, eu cometi meus erros, machuquei algumas pessoas, tenho um caminhão de defeitos de todos os tamanhos e formas.

Mas, porra, pelo menos eu não preciso cheirar nem injetar nada para fingir que tenho controle sobre minha vida.

Entrei na casa, o salão principal era gigantesco, cheio de sofás e poltronas e pessoas jogadas pelos cantos. Uns riam feito loucos, outros bebiam vodka importada direto da garrafa, outros estavam simplesmente desacordados. Gritei por meu irmão, não houve resposta. Haviam portas demais e uma escadaria imensa subia, quase formando uma espiral, até o segundo andar.

Caminhei até o centro da sala, um tanto indeciso. Felizmente, Leon e Aple vieram descendo num passo apressado, quase uma corrida, acompanhados de dois seguranças. Ignoraram minha presença completamente.

- Seu traficante de merda! Deixa um homem
armado entrar aqui só por ser seu irmão? - gritei, indignado, alguns dos presentes levantaram as cabeças, assustados, os "gorilas de terno" fizeram menção de sacar suas armas, mas foram dissuadidos por Leon, que parecia preocupado demais com algo para dar importância um irmão mais velho mal-humorado.

- Está tudo bem, rapazes, levem meu irmão ao escritório. Volto em minutos.

Ele saiu sem nem se virar, mandei os guarda-costas se foderem e sentei numa poltrona vazia. Meu irmão costumava se borrar de medo ao me ver com raiva, e se havia algo preocupante o suficiente para fazê-lo desconsiderar minha visita, era algo grande.

A música era alta e ruim, batidas eletrônicas sem sentido, ruidos sobrepostos e sintetizados, sem qualquer habilidade ou arte. Comecei a pensar: valia mesmo a pena todo aquele esforço para repreender meu irmão? Ele era bem mais novo e bem menos prudente, mas já podia cuidar de si mesmo. Não podia? Tinha mulher, seu próprio "negócio" - sujo, sim, mas o meu também era. Nossos pais já haviam morrido e a família, se desfeito. Não era hora de arrumar as malas e partir? Viajar e descansar, quem sabe meus cabelos parariam de embranquecer precocemente. Já vi coisas horríveis demais para um homem só, uma festa de viciados não era nada importante. Quer dizer, acaso sou o guardião de meu irmão?

Diabos, sou, sim.

Meia-hora depois, o som de gritos e passos apressados voltou ao salão, me arrancando do transe em que meus pensamentos haviam me mergulhado. Eles estavam voltando, os "convidados" estavam tão cheios de álcool e fumo e sei-la-mais-o-que que pareciam zumbis. A mulher tinha a face inchada e vermelha, lágrimas e histeria em seu rosto; o de Leon parecia uma máscara feita de raiva.

- VADIA! Era só entregar o dinheiro a ele e pegar a mercadoria! VOCÊ FODEU COM TUDO!
- EU? VOCÊ atirou nele!
- Queria que eu deixasse ele te agarrando e voltasse sozinho? A culpa é sua!
- SEU VICIADO DE MERDA!

Nunca ensinei meu irmão a desrespeitar as mulheres, muito menos a bater nelas.

- Leon. - Só agora ele havia percebido que eu ainda estava lá. E estava
furioso. - Precisamos conversar.

Subimos até um quarto no segundo andar, da janela, eu podia ver a rua asfaltada e imunda. Havia uma mesa de madeira no centro, uma cama de casal num canto. O carpete era escuro e as paredes claras, decoradas com quadros imponentes.

- Já vi que você tem problemas maiores do que eu para resolver, maninho, vamos dar um jeito neles antes de eu chutar sua bunda. Me conte tudo.

- Marcus... seu idiota... vá pro inferno...

- Pelo que eu ouvi, você teve problemas numa negociação. Quem é o seu fornecedor? Não trabalho mais para a polícia há alguns anos, você sabe, pode contar.

- Não interessa, estamos perdidos. - Aple chorava, sentada num canto, pensei ouví-la murmurar uma prece.

-Me conte o que houve.

-O desgraçado pensou que podia fazer o que quisesse, ele quis
aumentar os preços, falou coisas sobre o valor de um fornecedor confiável e sobre uma taxa extra pela urgência, o bastardo. Quis comer minha mulher, ali mesmo, na hora da troca, disse que ela pagaria pela heroína que havíamos negociado.Eu atirei. Ah, aquele filho da puta...

- Então, quem era mesmo esse filho da puta?

- Você não vai gostar: Hugo Santieri.

Santieri. Foi aí que eu descobri que ser o guardião de meu irmão ia acabar me levando mesmo pro inferno.

-Ah, seu merda, você ainda é o mesmo garoto idiota de sempre. Eu já lhe disse um milhão de vezes, eu sempre lhe disse, para não se meter com A Família. Então, deixa eu ver se eu adivinho o que aconteceu: voce acertou o desgraçado com sua 44 e estourou o ombro, o peito ou quem sabe a barriga dele, e ele continuou lá, de pé, olhando pra tua cara e sorrindo.

- Você andou usando alguma coisa da minha festa? Tá ficando maluco de vez? Ele morreu, a cabeça dele deve estar espalhada pelo chão até agora!

Inferno? Devia ser um bom lugar para estar agora, melhor que naquela casa, com certeza.

- Você
matou um Santieri? Um membro legítimo d'A Família? Tem CERTEZA disso? SABE O QUE ISSO SIGNIFICA?

- É, atirei e ele morreu, como qualquer pessoa. Estamos fodidos, eu sei, mas por que é difícil pra você acreditar em mim?

- Você vai descobrir da pior maneira. - Um ronco de motor se aproximando da rua pontuou a minha frase com ironia macabra. - Se preparem para o pior.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Party Crashers - Parte 1

Seis sombras se colocam lado a lado sobre o asfalto cinzento e imundo. Vistos do segundo andar, por de trás dos altos muros do casarão, eram todas iguais: silhuetas masculinas contra as luzes da rua, com casacos pesados, talvez usando chapéus, embora seja noite.

A mansão é enorme, não sei quem é o dono e não gostaria de estar na pele dele. Os homens lá fora têm uma má reputação quanto a danos contra a propriedade. Estou num dos quartos mais altos, junto com o motivo de eu ter vindo aqui – meu irmãozinho querido.

Queria arrancar a cabeça dele por nos meter nessa.

A mobília está limpa e nova, parece que nenhum dos “convidados” para a festa encontrou este cômodo: não sinto cheiro de vômito ou maconha e não há qualquer tipo de pó ou agulhas por perto. Não me importei em apagar a luz, tenho certeza que já fomos avistados.

Acho que posso ver os contornos quase elegantes de uma metralhadora Thompson, uma droga de uma relíquia dos anos 70, pode parecer estúpida se comparada com fuzis de assalto modernos, mas é assim que eles gostam da coisa: quanto mais estereotípico, melhor. Os Santieri possuem hábitos um tanto excêntricos, mas estão longe de serem palhaços, são piores que qualquer gangue de rua ou tropa de choque policial.

Mas eu não estou preocupado com as metralhadoras de grosso calibre, nem com a mira mortal dos psicóticos que trabalham para os Santieri. Estou preocupado com o que ouvi mais cedo, pouco antes de todo mundo entrar em pânico: "Victorio está vindo.”

Pois o maldito tinha vindo e trazido cinco de seus homens - homens? posso chamá-los assim? . Ele não era um matador qualquer, não era mais um dos capangas sanguinários que cuidavam do trabalho sujo.
Victorio pertencia à Família.

Quando um Santieri se envolve diretamente nesses negócios - negócios de chumbo e fogo - pessoas morrem.

Se eu tiver sorte, apenas todos nesta casa vão morrer. Tenho que tentar tirar meu irmão daqui, e depois acabar com a raça dele por se meter com a pior organização criminosa do país, diabos, talvez eles sejam os mais perigosos do continente

Pois aqui estou eu, me preparando para enfrentar seis maníacos armados com metralhadoras de grosso calibre. Tenho dois Taurus .38 e menos balas do que gostaria; meu irmão tem uma Magnum .44, mas está ocupado demais tentando acalmar sua mulher, que parece que vai começar a gritar a qualquer minuto.

Mas minhas balas não vão adiantar nada.

Tem uma mesa retangular no centro do quarto. Quebro uma das pernas e começo a afiar uma ponta de madeira com meu canivete de estimação. Meu irmão e a mulher dele estão olhando com medo e surpresa nos olhos. Estão começando a entender que a noite vai ser longa, muito longa.

- Que diabos você está fazendo, Marcus?

Continuo afiando, tenho que ser rápido, Leon parece que já entendeu antes que eu respondesse e começa a trabalhar em seu próprio pé de mesa – seu canivete é idêntico ao meu. No canto do quarto a mulher, acho que a chamam Aple, parou de chorar, está com aquele olhar vazio de quem já se entregou ao medo.

Está bem afiada, espero que consiga causar algum dano, não queria que se lembrassem de mim como alguém fácil de matar. Queria ter algum jeito de fazer fogo, mas achar a cozinha desse lugar enorme vai me tomar um tempo que não tenho.

Não ouço sons do lado de fora da porta, a música parou de tocar há algum tempo. Toda aquela gente barulhenta e desagradável deve estar morrendo de medo, os Santieri são famosos entre traficantes e viciados. Vendem droga da melhor qualidade e exigem seus pagamentos na data e hora combinadas. Todos no submundo da cidade conhecem pelo menos uma história do “amigo do primo de um conhecido” que não pagou o que devia e acabou numa poça de seu próprio sangue e vísceras.

“Ou você despeja a grana, ou eles despejam seu sangue”, era como diziam. Por que diabos fui me envolver nessa situação? Tudo isso para proteger um irmão inconseqüente e ingrato? É por um bando de vagabundos e viciados que vou sangrar hoje?

Mas Victorio e seus rapazes não estão aqui para derramar sangue.

Vieram bebê-lo, e aposto que estão com sede.