sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Sangue e cinza - Parte 3

As palavras saíram truncadas e deturpadas, à beira do entendimento. Pareciam se desprender da boca do morto só depois de uma luta ferrenha para permanecer encerradas em sua garganta, escapavam arranhando e gorgolejando. O cadáver parecia enrijecido numa expressão pétrea de agonia, como se tivesse sido morto durante uma longa sessão de tortura, e não simplesmente atravessado por um projétil de grosso calibre.

Os versos torpes e truncados, entalhados há muito tempo naquela velha pedra retangular num dialeto obscuro de uma língua antiga dada como morta, foram traduzidos com propriedade pelo cadáver, cada qual com sua entonação específica, embora todas as palavras ainda soassem como lamentos desesperados de alguém que estivesse lutando com todas as suas forças para mover os músculos necessários para falar.

“Shabaoth...” O caçador buscava em sua mente por alguma informação relacionada àquele nome, qual seria a porta que se abriria com aquela nova chave? A coisa se recolhia novamente para dentro de seu hospedeiro, levando a energia necrótica que animara o cadáver consigo.

O crânio do cultista morto atingiu o altar com um som desagradável de ossos rachando, seu cadáver novamente inerte. O som despertou o caçador de seus pensamentos. Não sabia muito sobre o ser ao qual aquele altar havia sido consagrado, mas sabia que era poderoso e ocupava uma posição bastante elevada nas chamadas “Cortes Profundas”.

“É um Lucifrano. Daemon da Corte da Soberba.” Ecoou o ser sombrio em sua mente, era terrível sua maneira de se comunicar. A coisa não tinha voz, a coisa pensava dentro de sua cabeça. Um pensamento indistinto aos seus, um pensamento particularmente denso e profundo que se formava em sua mente como outro qualquer, mas eclipsava todas as outras idéias, reduzindo-as a tênues fios de consciência.

- Os livros o mencionam como membro da Corte da Fúria. Estamos falando do mesmo demônio? – Preferia se comunicar com a coisa-chacal falando em voz alta. Ajudava a esconder a horrível sensação de ter estar dividindo a sua mente com alguém, de pensar os pensamentos de outra pessoa (pessoa? Seria muito mais fácil aguentar, se aquilo fosse apenas uma pessoa).

“Shabaoth despertou à existência no submundo como um Fúrio, mas traiu seu clã e acabou ascendendo entre as Castas Infernais, por isso se aliou a mais poderosa das Cortes Profundas.”

- Então estamos nos metendo com um cara de respeito, se o infeliz conseguiu passar a perna na própria família e ainda se dar bem com isso. Que tipo de coisa ele poderia ter enviado para esse bando de satanistas-de-fim-de-semana?

“Talvez a resposta a essa pergunta revele as intenções do nosso alvo.”

A coisa estava certa. Sempre estava. Não podia mais contar quantas vezes os conhecimentos e habilidades daquele críptico ser escondido em algum lugar de sua mente haviam lhe sido úteis. Na verdade, aquela coisa hedionda aferrada ao seu espírito salvar sua vida inúmeras vezes. Colocou o revólver no coldre sob o casaco e subiu as escadas, não sem antes acertar um belo chute no homem morto de manto vermelho-escuro. Odiava aquele tipo de gente quase tanto quanto odiava seus patronos.

Iria ao carro buscar gasolina, mas já se deliciava com a oportunidade de poder pegar a pump-action calibre 12 na mala do cadillac. Não havia nehuma mágica nela, mas fazia um estrago que aprendera a respeitar, muito antes se enredar nos planos de coisas ocultas e malignas, quando sua vida ainda guardava um semblante de normalidade e as únicas coisas que tinha de matar eram pessoas comuns.

Sorveu o ar noturno com avidez ao abandonar a atmosfera rançosa e estranhamente densa daquele cômodo subterrâneo. Os subúrbios eram sujos, sim, mas seu ar tinha menos veneno do que as cidades.

Veneno.

Soltou o ar não com um suspiro aliviado, mas com uma tosse nervosa e repentina. Estava estranhamente consciente agora de que havia uma toxina se espalhando em suas veias. A lâmina que o feriu devia ter sido tratada com algum veneno especial, era a única explicação. Voltou sua atenção ao ferimento mais uma vez, o corte era bem feio, mas havia algo impedindo o sangue de jorrar para fora, algo impedindo que a dor se alastrasse por seu corpo. Aquele maldito ser preso à sua alma tinha interesse em mantê-lo inteiro, em condições de lutar. Podia impedir a hemorragia e retardar o avanço da toxina, mas o caçador ainda precisaria de algum tratamento externo. Talvez ainda tivesse duas horas antes que até mesmo os prodígios daquela criatura de sombra e fumaça falhassem contra as imperfeições da carne.

Não havia tempo para descanso, não havia tempo para desviar sua atenção.

“A caçada deve continuar.” “A caçada deve continuar.”

O carro não estava muito longe, o havia estacionado numa rua próxima. Não era uma boa época para deixar um cadilac, modelo DeVille de 1995, reformado com perfeição, encostado numa viela qualquer de um bairro pobre. Mas o caçador tinha muitas outras coisas com as quais se preocupar do que com gangues de rua e ladrõezinhos de automóveis. Caminhou o mais rápido que podia sem chamar a atenção, era uma noite muito quieta numa vizinhança normalmente barulhenta, sinal de que o menor distúrbio deflagraria o caos generalizado. Quando finalmente estava perto o suficiente do veículo para estender as mãos abrir seu porta-malas robusto e antiquado, aconteceu o imprevisto mais desagradável possível.

Um guarda noturno dobrou a esquina, rodopiando despreocupadamente um cassetete. Parou à visão do caçador – o estereótipo do homem suspeito numa viela abandonada – e gritou, numa tentativa pobre de voz de comando:

- Ei!Você aí! Pare onde está!

“Ah, merda.” Praguejou, afastando as mãos no cadilac e levantando-as devagar.

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