“Num vai sarvá os vivo; mai vai butá us morto nus seus lugar de direito. Manda as Almas deles direto pru discanso eterno, pra labutá só na hora certa.”
O homem negro e maltrapilho que o presenteara com ambos o objeto de poder e o ensinamento, era bom, uma das últimas pessoas realmente boas naquela cidade. Mas o caçador não fizera aquilo como um ato de bondade, nem como um ato de dever. Era puro pragmatismo, ele dizia a si mesmo, limpar a contaminação demoníaca era necessário para evitar futuros problemas. Ainda restavam outras coisas para queimar.
Abriu despreocupadamente o tambor do revolver, o tiro que disparara contra o acólito havia desfalcado a sua meticulosa combinação de projéteis. Buscou num dos seus inúmeros bolsos e cartuchos pela bala certa: Taranis, o relâmpago. Colocou a bala, que carregava o símbolo de uma roda dentro de outra roda menor, ligada por seis raios. O símbolo celta do deus do trovão. Rodou o tambor para ajustá-la na posição certa, Taranis devia ser o primeiro a atacar.
Com a arma pronta, levou a mão à região entre o ombro e o pescoço, no local da punhalada. Não sentia qualquer dor, mas sabia que inevitavelmente teria de lidar com uma possível infecção, e a dor chegaria mais tarde – ela sempre chegava – quando se deitasse para repor as energias. Deu um passo em direção à escada que levava para fora daquele lugar, iria buscar o galão de gasolina que guardava na traseira do cadillac e reduzir todo aquele porão a cinzas.
A coisa dentro do caçador se revirou e se manifestou em seus pensamentos.
“Não está se esquecendo de nada? Acha que sabe de tudo o que precisa? Olhe de novo.”
“Olhe com MEUS olhos.”
A coisa escura dentro do caçador era de natureza ambígua. Percebê-la era como olhar através de um caleidoscópio, cada ângulo revelava uma nova realidade, cada olhada denunciaria uma natureza diferente, e de todos os modos não era possível distinguir realmente o que estava diante dos olhos.
Era uma coisa esquálida e faminta. Uma coisa esguia e traiçoeira que se esgueirava pelas pilastras escuras nos salões dos mortos. Uma coisa raivosa e faminta. Mas também era uma coisa nobre. Uma coisa antiga e poderosa. Uma coisa sombria sábia como as areias do tempo. Esgueirava-se nas sombras da cidade dos mortos e ao mesmo tempo se sentava no trono ósseo do regente.
Fosse vista como necrófago ou como sábio ancião, era uma fera astuta. Seus olhos eram faíscas vermelhas que denunciavam sua sagacidade, mas todo o resto era feito de algo entre a sombra e a fumaça, escuro como o vácuo entre as estrelas. Nem mesmo o caçador saberia precisar se aquele ser enterrado em sua mente e conectado ao seu espírito caminhava como homem ou como besta, mas ele via seu rosto.Era um chacal.
- Tenho tudo sob controle. O que temos de fazer agora é queimar isso tudo antes que alguma outra cria infernal se aproveite deste lugar.
“O altar, leia o que está escrito no altar.”
O caçador não gostava de ser corrigido em seus planos, mas sabia que devia ouvir os conselhos de alguém/algo tão mais sábio e experiente que ele. Mesmo que esse algo/alguém regozijasse na poeira e nos ossos e desejasse a carne morta das criptas. Deu meia-volta para o altar, agora livre do corpo da jovem. Não conseguia reconhecer a escrita. Aquela pedra rústica devia ter sido talhada no amanhecer do tempo – ou no crepúsculo das eras antigas, quando os deuses deixaram o mundo.
“O sacerdote sabe.”
Chamar aquele homem frágil e de aparência tão jovem, que agora jazia morto com um buraco fumegante no lugar do coração, de “sacerdote” era realmente um grande elogio. “No máximo, um cultista novato e descartável.” Pensou o caçador, e a coisa soube de seu pensamento. Mas não houve discussão sobre o assunto. Pegou o cadáver pelos cabelos, colocou os olhos na direção das escrituras na pedra antiga.
- Faça-o ver. Faça-o falar.
A coisa obscura e incorpórea, a coisa com a face de um chacal e olhos de estrelas semimortas, se insinuou para fora do caçador. Tomou forma como uma sombra pairando sobre ele, superposta a ele. Os olhos da coisa eram os olhos do caçador, as mãos do caçador eram as mãos da coisa.
A mandíbula do cadáver deixou-se abrir, sua língua amoleceu e ficou pendurada por um momento, então os olhos se reviraram, as íris azuis desapareceram e deram lugar a um tom esbranquiçado. A língua se contorceu como um verme revolvendo a sujeira e o maxilar se contraiu e relaxou, produzindo um movimento tortuoso que era um arremedo cruel de fala humana. O som era em partes iguais respiração ofegante e guincho agudo.
-Leia./Leia. – disseram em uníssono o caçador e a coisa-chacal e o cadáver os obedeceu.
“Desbravador incansável; caçador implacável
Sultão das terras sombrias; sussurro das tumbas frias
O cavaleiro negro; em sua pálida montaria
Bael-Al-Shabbaoth”
Sultão das terras sombrias; sussurro das tumbas frias
O cavaleiro negro; em sua pálida montaria
Bael-Al-Shabbaoth”
Gostei. Achei que você demorou muito para descrever algumas coisas. Não que isso seja ruim, pelo contrário, é bom. Ótimo.
ResponderExcluirMas você conhece sua namorada.
Sou curiosa e ansiosa e quero saber de tudo rapido hihihi
No mais, não vou tecer comentário do tipo 'nossa, você escreve bem'.
Já deve está cansado de ler/ouvir isso de mim u.u