terça-feira, 13 de julho de 2010

Sangue e cinza. ( parte1)

O ar tinha um cheiro forte de morte, fogo e enxofre, maximizado pela falta de espaço e isolamento daquele cômodo escuro. Um porão antigo esquecido nos subúrbios, sem nenhuma casa assombrada sobre si, apenas um terreno baldio que abrigava pouco mais que uma proliferação descontrolada de ervas daninhas, lixo urbano e talvez alguns roedores.

E, é claro, o tradicional culto demoníaco.

“Odeio clichês.” Resmungava o caçador enquanto checava instintivamente a munição do revólver, uma monstruosidade de ferro modificada a tal ponto que seria impossível identificar o modelo. Na verdade, era provável que fosse um amálgama de diversas peças diferentes. A disposição das balas no tambor era muito específica; o fundo cada projétil era marcado com um tipo diferente de símbolo ou runa, e só a combinação correta serviria para abater a presa daquela noite.

Correu os olhos novamente pelo aposento, todos os elementos básicos estavam ali: um altar de pedra com o símbolo da deidade a ser evocada, completo com uma virgem nua e recém sacrificada. Talvez não fosse uma virgem, mas as condições apontavam para tal. Tudo mais era como num blockbuster de horror para jovens alienados. Havia sal grosso, velas de todos os tamanhos apoiadas em crânios limpos e sorridentes, musgo e terra de cemitério, pelo menos meia dúzia de insetos peçonhentos diferentes devidamente tratados, pó-de-chifre, um jarro de vidro cheio até a borda com sangue e o mais importante de tudo: o punho decepado e semidecomposto de um cadáver, eternamente cerrado graças ao rigor mortis, a Mão-da-Glória.

Todos os clichês metodicamente reunidos, feito uma peça de teatro dirigida por algum maníaco compulsivo. Até o bom e velho cultista vestido com um manto vermelho-escuro, portando uma adaga de lâmina tão retorcida quanto afiada, só o que quebrava a harmonia macabra da cena era o buraco fumegante aberto bem no meio de seu tórax. O tiro do caçador havia ecoado como um trovão e atravessado o peito do infeliz adorador das Forças Ocultas como um relâmpago, chamuscando-lhe o manto escuro nos pontos em que havia entrado e saído. O caçador teria poupado sua vida, se ele não tivesse cometido o erro de cravar o punhal em seu ombro direito.
A maioria das pessoas acha que uma incisão profunda tão perto do pescoço causaria sérios problemas a um homem comum, e isso é bem verdade. Mas o caçador não era exatamente comum, talvez nem fosse completamente humano.

Estava tentando deduzir que tipo de manifestação havia sido evocada. A Mão-da-Glória com certeza indicava uma coisa poderosa e irremediavelmente má. Não tinha como saber se os chifres triturados para fazer o pó que estava despejado sobre o altar eram de bode ou boi, talvez nenhum dos dois, talvez ambos. Aproximou-se do corpo da mulher sacrificada, uma bela jovem morena, não devia ter mais que dezessete anos, notou as tatuagens ritualísticas desenhadas em seu corpo, sugeriam que havia sido preparada para como receptáculo para possessão. A julgar pelo estado do ventre da moça – completamente dilacerado, de dentro para fora, com coágulos escuros como piche ao invés de rios de sangue – a coisa que se apoderou dela deveria ter adquirido forma corpórea e abandonado a “casca”.

“Pra onde quer que tenha ido, deve estar crescendo bem rápido agora.” O caçador fazia anotações mentais sobre a possível natureza da coisa que viria a enfrentar sem demonstrar qualquer preocupação. Tirou de um dos bolsos do casaco um colar de contas, assemelhava-se a um terço, mas cada conta era de um tamanho, cor e material diferentes – osso amarelado, madeira vermelha, âmbar, plástico preto – e na ponta, ao invés de uma cruz, havia algo parecido com uma pluma, porém era rígida, lisa e afiada como aço e reluzia como prata pura.

Com o estranho colar de oração enrolado em uma das mãos e o revólver na outra, o caçador murmurou uma prece curta, palavras decoradas em uma língua desconhecida até mesmo para ele. Encostou a pluma de prata na cabeça da jovem morta.

- Sol e água, um pouco de paz em tua alma. Fogo e cinza, descanso para teu corpo.

No mesmo instante, o cadáver da jovem pareceu estar limpo, sem quaisquer desenhos ou glifos em seu corpo. Lentamente, as extremidades do corpo começaram a desprender uma fumaça esbranquiçada, queimando lentamente sem exalar qualquer odor. No fim, restaram apenas as cinzas, que foram gentilmente carregadas pelo vento, mesmo no ar rançoso e imóvel daquele cômodo escuro.

Um comentário:

  1. aposto que a neném da história era uma ninfetinha vampira que se fazia de prostituta e matava seus 'clientes' oiruroeuriutio

    isso é tão Anno Drácula[que até hoje eu não finalizei u.u]

    ResponderExcluir