quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sangue e cinza - Parte 4

O guarda noturno se aproximava em passos rápidos, não se esquecendo de lembrar ao caçador que ficasse "bem quietinho aí" e que "estranhos não deviam perambular pela vizinhança a essa hora da noite".

O caçador tentava transparecer o máximo de calma possível, enquanto em seu interior crescia uma frustração devastadora que só um maníaco privado do objeto de sua obsessão pode conhecer. Por que justamente agora? Quando estava perto, oh, tão perto de encontrar um nó solto, um ponto fraco!

Agora tinha de se preocupar com o vigia, um homem de aparência cansada e nem um pouco ameaçadora. Exibia uma barriga volumosa se insinuando por debaixo do uniforme e parecia estar suando como um condenado mesmo com o a brisa refrescante que sussurrava em meio às ruas e becos naquela noite. Um homem comum, um maldito homem comum entrando no caminho de um matador, pior, ficando entre um matador e sua presa.

-
Boa noite, garotão! - Disse o guarda num tom jovial, tentando mascarar certo desconforto. O caçador era muito maior que ele e, mesmo com um sorriso estampado no rosto, deixava que algo em seus olhos denunciasse sua natureza. - O que um cara como você está fazendo por aquo a essa hora? Não veio procurar encrenca, não no meu turno, não é?

-Cadê o seu parceiro? Pensei que andavam em duplas
... - Uma lanterna, uma Glock travada, ainda no coldre, um rádio. Tinha de dar um jeito naquele cara e naquele maldito rádio.

-O Jeff precisou atender a um "chamado da natureza". Mas só eu faço as perguntas por aqui, grandão. - Um ar de confiança verdadeira ainda se prendia aquele homem aparentemente mole e decadente. - O carro é seu?


Os documentos do cadilac estavam todos em ordem, sua carteira, também, manufaturados pelo melhor falsificador da cidade. O problema era que os papéis estavam dentro do carro, junto com todo um arsenal digno de um grupo guerrilheiro paramilitar, esse sim, sem qualquer registro ou documento que atestasse sua legalidade. Se fosse revistado, seria pego com três armas de fogo não registradas e algumas gramas de mescalina. Como se livrar daquela situação? Matar aquele homem, um trabalhador que provavelmente tinha esposa, filhos e um aluguel atrasado ou dois para se preocupar, o tornaria tão horrível quanto os bastardos que estava caçando. Deixá-lo viver poderia significar perder o rastro da presa ou ser descoberto pelas autoridades.

- Sabe, oficial... eu não sou um marginal qualquer andando por aí no meio da noite. - "Vamos, compre minha história" - Mas eu não devia estar aqui. Certas pessoas não podem saber o que eu fiz hoje.

- E o que andou fazendo, senhor...

- John Smith, mas pode me chamar de Jon. - "Pode me chamar de Cinderela, só preste atenção e acredite nessa mentira" - Bem, o senhor sabe, oficial, às vezes um homem tem certas necessidades e às vezes a esposa desse homem está cansada demais ou histérica demais para compreender e satisfazer essas necessidades...

-Não vejo aliança no seu dedo, "Johnny".

"Ah, bem observado, imbecil, agora engula o resto da história."

-Eu não ousaria fazer o que fiz sem tirá-la, senhor, não senhor. Eu respeito a minha mulher. Sou um homem de princípios.

O homem de uniforme sorriu, um sorriso malicioso, de quem compreende e compartilha desse tipo de "necessidade".

-Preciso chegar em casa o mais rápido possível, entrar sem fazer barulho, ela e as crianças têm o sono leve, sabe? Se o senhor me liberar, terá minha eterna gratidão.

- Gratidão, Johnny?

- Gratidão. Do tipo que é verde e compra algumas cervejas pra você e seu parceiro no fim do expediente.

- Ora, meu amigo. Pois eu compreendo muito bem as necessidades de um homem, como eu compreendo! Eu estaria sendo muito insensível se não me solidarizasse com sua situação.

O oficial da lei estendeu a mão amigavelmente em direção a "John Smith", como quem espera um aperto de mão fraterno e um muito bem-vindo suborno. O caçador procurou nos bolsos do casaco sem muita pressa, até finalmente encontrar o que procurava. Murmurou baixinho:

- Sabe, a gente sempre pode contar com a corrupção do próximo...

-O que disse?

A pergunta do guarda foi calada pela pesada coronha de um revólver modificado, que se chocou contra seu crânio com a força de uma bala de canhão. O homem que não tinha o direito de usar o uniforme que vestia nem o distintivo que carregava caiu no chão como um saco de adubo, desacordado.Havia um pouco de sangue brotando do lugar onde fora atingido, não o suficiente para indicar uma ferida letal.

O caçador abriu displicentemente a mala do cadilac, abarrotada de artefatos potencialmente letais, úteis ou simplesmente estranhos, pegou o galão de gasolina, alguns metros de corda e um rolo de fita adesiva tipo "silvertape". Demorou mais alguns minutos para amarrar o policial, se preocupando em deixar cada nó o mais resistente possível. Não que houvesse chance do homem acordar na próxima hora, mas queria que as cordas o apertassem de maneira a deixar marcas profundas e doloridas. Não bastasse ter sido interrompido em sua caçada, tinha especial desprezo por agentes da lei corruptos.

Trancou o infeliz no porta-malas, amarrado, amordaçado e vendado, destruiu seu rádio e tirou-lhe a glock. Voltou calmamente ao terreno baldio com a gasolina em mãos, pronto para incendiar aquele porão, para deixá-lo tão quente quanto o inferno ao qual servia. O sangue corria rápido pelo seu corpo e seus músculos estavam rígidos de antecipação, como molas num gatilho. A verdadeira caçada estava por começar.

Podia sentir a coisa obscura em sua alma se insinuar em sua mente. Parecia entretida pela sua atuação com o guarda noturno, não a via, mas sabia que estava ,de algum modo, sorrindo.

"Mesmo afastando-se quase totalmente do contato humano, parece ter mantido sua capacidade de persuasão, Caçador."

- Foi só o que me sobrou de humanidade: algumas palavras duras e muitas mentiras.