quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Monster

Mas, e se você fosse eternamente jovem, simetricamente perfeito, imortal e inabalável?
Se atravassasse os séculos sem sucumbir aos males da mortalidade, aos caprichos da natureza e ao poder corrosivo do tempo? E fosse oh-tão-belo-e-majestoso que todo homem e mulher se jogasse aos seus pés, lhe amasse loucamente à primeira vista; e todas as bestas obedecessem tua vontade como cães fiéis? Se todos os prodígios e prazeres estivessem a sua disposição, tão fáceis de alcançar quanto uma fruta suculenta pendurada convenientemente num galho mais baixo?E se, mesmo com todo esse esplendor, seu coração não batesse? Se seu corpo fosse uma coisa morta e profana animada por pura malícia?O próprio Sol se encarregaria de puní-lo. E se fosse forçado a se alimentar da força vital das pessoas ao seu redor, de seu sangue, como um parasita?

Ou então, talvez fosse uma coisa selvagem, com a força da própria Natureza ao seu lado - não, sob você? Se pudesse correr por dias e noites sem cansar, beber litros de vinho sem cair, suportar todo tipo de ferimento e abuso físico sem soltar um gemido de dor, e suas feridas se fechassem quase que instantaneamente? Se pudesse mudar sua forma, andar como uma fera, sem medo, caçando pelos ermos ao seu bel prazer? Mas, se sua vontade não fosse mais tão forte, e o instinto dominasse seu coração? Se a fúria em seu coração ameaçasse se derramar por sobre aqueles que você considera seus? E se as marés e as mudanças na face da Lua o impelissem a agir, como um geas, uma interdição irracional que precisa ser cumprida a qualquer preço? E se numa manhã você acordasse despido num lugar estranho, com o gosto férreo do sangue em sua boca, uma sujeira avermelhada coagulada sob suas unhas? E se visse em meio aos cadáveres mutilados de inocentes?

De outro modo, talvez fosse: se Morte batesse a sua porta, poderosa e inevitável, pronta para lhe levar, anunciando que seu tempo havia acabado? E se, em meio a sua agonia e desespero, alguém - algo - escuro e insondável se insinuasse em sua mente? Prometesse mais uma chance, se o deixasse tomar as rédeas? Se esse ser alienígena cumprisse a parde do pacto e lhe trouxesse de volta, mas se instalasse na sua consciência? Se lhe sugerisse que fizesse certas coisas, uma vez ou outra, e usasse seu poder espectral para lhe auxiliar em seus objetivos? Mas, quando a coisa iria exigir que você cumprisse sua parte da barganha? Por quanto tempo você poderia continuar vivendo até perder o controle de seu corpo?De sua alma?

Pense no pior: e se você fosse uma aberração completa? Algo não-nascido, mas criado por alguém com a ciência e a loucura necessárias? Se eu corpo fosse algo roubado de um cemitério, costurado de várias partes diferentes, e suas articulações soldadas com cobre e ferro? Se sua alma fosse um fogo roubado dos deuses, assim como seu corpo roubado dos homens? Se o mundo a sua volta o odiasse por ser fruto de um pecado tão hediondo? E fosse condenado a vagar pela eternidade, procurando por um lar que não existe, uma falsa redenção?

De qualquer um desses modos, como o chamariam?
Monstro.

Que destino horrível se abateu sobre estes seres? Que deus malicioso permitiu suas existências atormentadas? Ah, seria horrível, sem dúvida, viver como um deles.

Uma novidade pra você, amigo.

Você é pior que todos eles.

Você é humano.






Monster
They point and shout and babble
At the unholiness of thy form
The mad screaming of human rabble
Merciless, mindless horde
Run!Steal yourself away!
For you are thought of as Satan's Predator
Yet is hunted down like worthless prey!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

We write.

Por quê escrevemos?

A humanidade, ao que parece, começou bem cedo a querer representar, explicar e comunicar o mundo de forma inteligível. Passamos a documentar não apenas os fatos ao nosso redor, mas nossos sentimentos e impressões sobre as maravilhas e os horrores do mundo.Mas, mesmo assim, por que escrevemos sobre coisas que nunca vimos? Coisas que compõem o material dos sonhos, do medo e da loucura?

Simples, pra impedir que essas coisas nos alcancem.

O pensamento é uma coisa curiosa, nos debruçamos sobre teorias e conjecturas e ideias sobre toda e cada coisa com a qual entramos em contato, seja ou não diretamente. Algumas dessas ideias são como um bom vinho: amadurecem com o tempo. Nossas convicções tornam-se mais sólidas, nossas aspirações, mais definidas.

Mas ai tem aqueles pensamentos que não sabemos de onde vieram.

Coisinhas pequenas, sem importância.
Fantasias geradas pela solidão, pelo calor, por emoções difíceis de definir.
Essas coisas não são relevantes a princípio, mas se devidamente "alimentadas", prosperam. Crescem e tomam forma, criam raiz no solo fértil da fronteira entre o consciente e o inconsciente.

Quando você menos espera, vê aquela coisa formada nos cantos obscuros de sua mente; se contorcendo, ganindo, arranhando a porta pelo lado de dentro.
Se cada cabeça é um mundo, num espaço vazio e isolado de cada uma, longe das estrelas que são os pensamentos "saudáveis" desse universo, se esconde algo como o Azathoth, o Demônio-Sultão e a cacofonia do seu coro de flautas invisíveis. Revolve-se sob si mesmo, girando e girando, e tudo o que se desprende de sua massa desprezível toma forma como algum pesadelo na profundidade insondável da mente, mesmo do mais simplório e embrutecido ser humano.

Essas coisas ficam lá durante anos, se deixarmos, fermentando, proliferando no caos dos pensamentos. E vão nos enlouquecendo, pouco a pouco. Uns bloqueiam inteiramente suas mentes, outros são "terra fértil" para toda essa criatividade espontânea - diria até entrópica.

É a minha razão particular para escrever, dar vazão às ideias selvagens e pensamentos difíceis de subjugar, antes que essa "praga da mente" se espalhe demais e me deixe mais louco que o necessário.




And so,
We write
Through the fog of the ages
And the haze of the mind
We write.